sábado, 31 de outubro de 2009

O encanto de Ares...



Ah! Se por ti eu não perder o rumo
talvez me encontrarás aqui
na espera de alguém que tarde chega
ou que inda vive, só, em mim.



Naquelas noites,
fazendas perfumadas de sal
olhares redentos ao medo
emprestei-te meu único véu casto
para nele derramar seu dôrso



aos fins de tarde ou madrugadas nuas
onde todo lugar é pouco
selamos com louvor a paixão dos errantes
num mar de desejos inefáveis
em ondas de torpores ardentes



n'alguma manhã qualquer
tu voltarás, bem sei
enquanto meu pranto qual fel
cai lentamente às cartas
deixando borrados os versos
imaculados, dopados de anseios



rasgarei, profana, carne
num pulso sentido desespero
em luas crescentes despertas
entre estrelas marcadas, incertas
conjurarei teus doces beijos



Qual virgem que ama em sortílégios
almejando tuas mãos em meu peito
mais uma vez não te esvais
pois num encanto e então
habitarás em mim mais que eu mesmo


Vingarei-te as lágrimas derramadas
não em vão, tu me cobrirás com teu libré
por noites e noites meu guardião dourado
e só na pele tua percorrerá meus segredos.



De joelhos clamarás aos meus pés
desatinos percorrerão teu corpo inteiro
do meu amor, teu amor será maior
então tu terás crido que amar é o pior de todos os erros.






Se tu existes


Não, não estou louca
nenhum, portanto, devaneio.
Tu existes e isto basta
teu ser impulsiona meu tôdo desejo!

Dos sonhos que sonhei contigo
nada alivia, somente um nada
que tomba ao teu menor suspiro
do teu nada faço meu abrigo.

Glória infinda seria teus olhos
pousarem no íntimo do meu segredo
se tu existes, isto não abranda
teu doce calor não cobre meu leito.

Emerge aos prantos com seus espinhos
o louco amor que toma meu peito
Pois tu existes, e disto creio
não se findará num único beijo.

Enquanto houver vida, tempo finito
ouvirás rascunhos do meu anseio
pois que amor tamanho, juraria
tragará ou matar-me-á por inteiro.

Tentar, então, fugir em vão destino
de teu olhar, arma mortal
para quê? se já morro por tí.
para onde? se querer tanto é meu único mal!
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Anna Resena

http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=63917

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Envidia...


Era uma ponte estreita, que passava em cima do rio de águas cristalinas.
Todos os dias, Andreas caminhava por ela, contemplava o correr das águas e colhia algumas flores às margens do pequeno rio.
Andreas observava suas vertentes desaguando afora, tal como seus intensos sentimentos, inúmeros demais para um ser tão pequeno.
Nunca tivera receio do movimento inconstante e aterrador no balançar solitário da pequena ponte. Por ela andava e nela guardava seus segredos. Às vezes, preferia ficar recostado aos braços da pequenina, murmurando, sonhando, sentindo-se feliz, apenas, por existir.
Da foz, das palavras, um lamento ardente, um grito mudo, em existir e mais nada.
Existiam, junto a ele, as flores, os campos, o céu findando azul na noite, os pássaros que adornavam as largas copas arbóreas e Deus, n’algum lugar ou em tudo.
Acreditava em Deus. No amor esplendoroso Daquele que dá vida, sem nada pedir.
O amor de Andreas também era grande e constante. Apesar de cuidar da mãe doente e de nunca ter conhecido o pai. Sonhava com a face oculta do pai. Sonhava e, horas, chorava baixinho. “Por onde andaria?”, almejava Andreas, todos os dias.
Andreas parecia feliz. Era intenso e sonhava alto.
Ao olhar as nuvens pesadas, pousando o céu, imaginava os olhos de Deus. Como nunca os veria. Os olhos Dele e de seu ausente pai.
Mas Andreas guardava tantos sorrisos. Talvez numa essência mágica e secreta, que ousa escapar, mesmo diante do correr ininterrupto do tempo, mesmo na morte.
Até então, secretos e imaculados pensamentos.
Até o dia que viria a ser o instante da perda.
Ainda criança, sem defesas, Andreas parecia incorruptível aos males externos. Quanto aos males de si, ainda não os conhecia.
Andreas amava a visão do mundo sem o conhecer tão bem. Não possuía a visão dos ditos sábios. Até o momento do encontro.
Num dia de chuvas grossas e amargas, que rolavam dos cabelos à face e caíam, agudas gotas, aos lábios.
Um velho pousava sobre a ponte, antes tão solitária; naquele instante, dividida, repartida, habitada por alguma alma nunca vista.
Andreas se aproximou, sem medo. Não conhecia, simplesmente, o medo, o mal alheio.
Perguntou ao velho:
- Quem és?
O velho apenas sorriu, cínico e desalentado. Continuou mascando o fumo negro, emoldurando os dentes pavorosos.
Andreas sentou ao seu lado e continuou, só e calmamente, o diálogo:
- Aqui é tão bonito! Não acha?- sorriu doce – Como é seu nome?
O velho, num suspiro longo, desentravou:
- O que há de bonito? Um rio turvo, árvores mortas, pássaros sujos e flores... Flores não servem para nada. São tão feias e amarguradas.
Andreas continuou sorrindo:
- Tudo há de belo. O rio é cristalino, as árvores, verdes como os olhos de Deus, os pássaros livres me causam um sentimento tão bom! Ah... e as flores! As flores perfumadas e coloridas...
O velho começou a bater sobre o dorso da ponte e exclamar, violentamente:
- Como podes saber a cor dos olhos de Deus? Seu moleque estúpido!
Andreas, convicto e irredutível:
- Os olhos de Deus podem ser da cor que quisermos. Verde é a cor da vida, dos matos, das plantas que Ele criou; verdes são os olhos da minha mãezinha. Verdes que brilham...
O velho sorriu, sarcástico:
- Você é só um moleque, não sabe o que está falando...
Andreas tocou em suas mãos:
- O senhor ama alguém?
- Que pergunta tôla?
- O senhor ama?
- O amor é uma coisa horrível...
- Horrível? É porque, deveras, o senhor não ama ninguém. Ou porque não há alguém para amá-lo e ensiná-lo a amar. Vê as coisas, os bichos, o rio, a vida com os olhos da alma e, por isso, vê tudo tão feio. Sua alma está tão amarga como a chuva que cai sobre nós.
O velho nem percebera que chovia, tamanho seu desprezo pela vida.
Andreas continuou:
- Se amasse saberia falar do amor, da beleza que há em tudo. A beleza que há, até mesmo, nos olhos tristes como os seus.
O velho deixou cair uma lágrima que, logo, se misturou a alguma gota de chuva.
Andreas tirou da lapela encharcada uma flor amarela e estendeu-a ao velho:
- Pega!
O velho, com as mãos trêmulas e manchadas, segurou a flor.
Andreas sorriu, pela última vez e levantou-se para ir embora.
O velho, imprecisamente, tirou do bolso um punhal prateado que foi de encontro ao peito de Andreas, traspassando-o.
Andreas soluçou um breve lamento e um suspiro rubro, como o sangue que vertia do peito e dos lábios. Lembrou-se do leito do rio, da mãe, de quão maravilhosos poderiam ser os olhos verdes de Deus...
Exclamou:
-Talvez encontrarei meu pai!
O velho, assustado pela tão imensa e sobre-humana fé do menino, começou a correr, sem destino, até desaparecer no horizonte.
Andreas ainda exalava alguns brandos e finitos suspiros. Chuva, lágrimas e sangue se mesclavam em seu rosto, antes viçoso e iluminado. Escorriam, entrelaçados pelo peito.
Caído, Andreas observava o céu escuro, a água abundante pousando sobre os seres, sobre o mundo tão rude.
Sorría, esperando, talvez, ver o pai. Apenas chorava pela mãe, cada vez mais distante.
A madeira, quase podre, da ponte, aos poucos, tingia-se de um vermelho tão vivo quanto a alma do garoto.
Andreas, cerrando os olhos lentamente, sussurrava:
- Os olhos de Deus são realmente verdes!
O céu iluminou-se num magnífico instante. A chuva, silenciada.
Um anjo branco, cintilante, estendeu-lhe as mãos:
- Vamos Andreas...
Andreas, admirado, levantou-se:
- Para onde vamos?
O anjo, imenso, sorriu, segurando as pequenas mãos daquele anjo outro que acabava de nascer:
- Vamos para um lugar onde ninguém poderá lhe fazer mal algum... Um lugar tão bonito como este. Onde verás a cor dos olhos Dele e onde encontrarás seu pai...
O anjo prosseguiu, guiando Andreas para um arco de luz intensa:
- Um lugar, meu pequenino, onde não há dor, lágrimas ou morte. Onde não há, nem haverá "envídia"!

.:envidia: inveja.

Resposta

Florbela Espanca


Eu não me importo com o juízo mal formulado dos que nada sentem, dos desumanizados...

Se falam mal até de Lispector, de Florbela Espanca... Por que me entristeceria, ao ouvi-los criticar minhas humildes linhas???

Mas, como dizia o poeta:

"Melhor morrer de amores, que passar pela vida

sem conhecê-lo"!

P.S.: Prefiro falar do amor dos homens que fazer literatura para objetos inanimados... Pelo menos, as pessoas que sentem, sentem o que escrevo. Mas os objetos...estes não sentem nada!!!
Talvez Florbela e tantos outros poetas dos sentidos tenham findado suas vidas porque se depararam, neste pobre mundo, com tantas pessoas insensíveis e mesquinhas...
Mas eu não me importo...
Mesmo sem título algum que anteceda meu nome, sei que posso ser melhor que muitos...
EU AMO, EU SINTO e isso é TUDO!!!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Versos Perdidos...


´¨`♥~•.¸¸.•♥´¨`♥•.¸*

"As frases são minhas
As verdades são tuas
Enquanto te desejo
Me vejo chorando no meio da rua
Beijo teu sorriso num dia de sol
Que entra pela porta
E canta pela janela

A noite mãe do dia
Molhava tua boca
Na língua da poesia
Oh meu grande amor de versos perdidos
Murmurando na chuva como um refrão
Que só faz sentido
No fundo da cama"
´¨`♥~•.¸¸.•♥´¨`♥•.¸*
(Zeca Baleiro)

domingo, 25 de outubro de 2009

O Cavaleiro e a Borboleta...


- Camille! Postura!
A sala parecia pequena para os sonhos da jovem bailarina. As sessões de treino eram intensas e cansativas. A distração era inconcebível e seus esforços, por vezes, surreais.
Camille repetia o arabesque pela oitava vez.
- Camille, não!
O “não” da professora entrava certeiro no peito de Camille. Suas pernas tremiam, seu coração batia acelerado e descompassado. Tão descompassado como seus pensamentos naquela fria tarde. Onde estariam seus pensamentos? Não estavam na força dos pés, Camille caiu pela quarta vez em menos de uma hora...
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- Posição de pés, Carl! Pés e cabeça, para uma mira perfeita.
Pés e mãos, não trêmulos. Talvez fosse melhor optar por uma vida mais tranqüila, Carl imaginava, sem grandes pretensões.
O treinador percebeu a sua desmotivação:
- Quer beber uma água e voltar depois?
Carl nunca tremia, não desistia, não exalava nenhum sentimento inconstante. Ergueu seu olhar, posicionou-se corretamente:
- Quero continuar...
Os pensamentos e acontecimentos externos não lhe afetavam tão cruel e explicitamente. Poderia, naquele instante, esquecer até mesmo a morte de seu melhor amigo, há duas semanas. Talvez parecesse frio, sua profissão era colocada acima de todas as outras coisas e isso o tornara exímio perfeccionista e imperfeito companheiro.
O disparo foi certeiro.
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- O que há, Camille?
A jovem não respondeu à professora. Continuou calada e perplexa.
- Quer parar, Camille?- Preocupou-se a professora, já segurando suas delicadas mãos.
Camille estendeu seu olhar em direção à janela, admirava o céu azul, quase escuro.
- Não posso parar... É que por alguns segundos senti uma dor no peito. Foi como se algo me cortasse ou estilhaçasse o coração...
A professora permanecia assustada, apoiada na barra, ao lado de Camille. A jovem sempre foi sua melhor aluna, talvez por isso fosse tão incompreensível que, naquele dia, cometesse tantos erros.
- Camille... Vaga teus pensamentos, por onde?
Camille deixou rolar umas duas ou três lágrimas e continuou a olhar o céu, magnífico para um dia tão frio.
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- Punho firme, músculos ventrais sob controle e respiração, equipe!
Carl se distanciou do treino, por segundos, observando o azul impetuoso do céu.
- Carl, está prestando atenção? – Perguntou o treinador.
- Sim, senhor! – Sabia fingir. Não poderia parecer corruptível ou sentimental. Talvez, técnicas demais lhe deixaram mais averso a sentimentalismos e emoções.
- Vamos tentar, mais uma vez. – Sugeriu o treinador.
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- Camille, demi-plié... Sissone!
Camille já não tinha mais forças nos pés. Suas emoções, nunca conseguira contê-las e, por isso, parecia tão ansiosa:
- Posso ir embora, senhora Merie? – Perguntou, abatida.
A professora segurou suas mãos, respondendo:
- Pode! Vá e descanse. Sei que hoje não estás em um de seus melhores dias. Quer conversar?
Camille negou, movimentando a cabeça. Continuava com os olhos marejados e distantes. Se despediu e saiu da sala.
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Todos foram embora do pátio de treinamento, mas Carl permanecia, num esforço quase sub-humano. O treinador gritou do corredor:
- Vamos embora, Carl?
Carl não respondeu. Continuou concentrado e irredutível. Pensava em fazer sempre melhor, em parecer melhor no dia seguinte. Concentrou-se em seus mais secretos pensamentos, sorriu e disparou pela última vez, naquele dia.
- No peito! Perfeito!
Não costumava ser sarcástico, mas, horas, se tornava tão sóbrio e gelado. Dava para sentir sua respiração, seu coração pulsando compassadamente. Não se importava com os sonhos, se neles naõ houvesse o mérito da profissão. Repetiu, mais uma vez:
- Perfeito!
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Camille trocou suas roupas, despediu da professora e desceu a enorme escadaria do teatro. Seus pés ainda doíam e seu coração batia forte e único.
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Carl guardou o uniforme no armário e desceu, arredio, para a garagem. A respiração controlada, um auto-domínio impressionante.
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Ao entrar no carro, apoiou suas mãos ao volante e inclinou a cabeça sobre ele. Chorou, compulsivamente, num gesto de desespero e dor.
Embora tentasse esquecer, se lembrou de Camille e de seu amor extremo e incontido. As palavras dela surtiam como disparos em seu próprio coração. Abstraído por tudo isso, Carl continuou ali por vários minutos, sem perceber que o céu, antes claro e limpo, se encobrira de nuvens cinzas e densas.
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Camille também se distraíra tão longamente que não percebeu os primeiros pingos de chuva em seu casaco. Continuou andando, ora entre lágrimas ora recordações, tão distante deste mundo material.
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Talvez os pensamentos dos dois viessem a se unificar e responder a questões que suas almas tanto suplicavam... Tão simples respostas, tão difícil retorno. A verdade era profunda: nunca haveria um retorno. Talvez por isso as lágrimas não pudessem ser contidas, embora escondidas. Talvez não quisessem assumir que o amor os tornaram ainda mais mortais. Carl tentava fingir. Camille precisava fugir de seus sentimentos. Tudo estava claro. Suas vidas opostas e, milimetricamente, distanciadas. Olhavam-se, todos os dias, mas não tinham mais nada a dizer. Dois personagens de um inapagável destino. Duas almas que se perderam, antes mesmo de se encontrarem. Ou se encontraram tão rápida e furtivamente que não perceberam, nem conceberam a dimensão de seus sentidos, sentimentos. Agora, recordavam o passado com dor e pesar...
Camille continuaria inconstante e frágil. Guardava as últimas forças para o ato final: grand croisé. Seus pés buscavam a perfeição que somente as mãos de Carl pareciam possuir. Seus olhos vertiam oceanos que, também, somente Carl poderia conter. Quem sabe, a esperança da última palavra, do último abraço, do último movimento de redenção... _______________________________________________________
- Postura!
A palavra ecoava como ordem de extermínio, iminente. Postura é o contrário de se deixar ser. E Carl seria, eternamente, posturalmente perfeito... Enquanto Camille nunca aprenderia, mesmo com tantas quedas e estilhaços no peito. Continuaria sonhando, olhando a imensidão pela janela, das ruas vazias e negras... Como os caminhos de seu coração apertado, desatinado, adverso de seus olhos amendoados.
Encontraria Carl, mais uma vez Encontrariam-se em olhares e, instantaneamente, se entenderiam. Mas o instinto de defesa seria, sempre, mais ameaçador e impetuoso. O guardião dos sentimentos: a perfeita postura. Preferiam a submissão dos quereres à explosão dos desejos. Inacreditavelmente, fortes e dissimulados.

sábado, 24 de outubro de 2009

Cartas vermelhas a uma amiga oculta II...

- Quem tu és?
- Teu verbo...
- O que sentes?
- Teus medos...
- O que vês?
- Teus segredos...
- Por que morres?
- Por desejo...
- Onde estás?
- Tire tua máscara!
- Tu me amas?
- Mas tu te odeias...
- Mas és tão rubra!
- Enquanto finges ser branca...

Cartas vermelhas a uma amiga oculta...

Amiga
(Fim)
Não houve guerra
nem haverá tréguas.
Tu ganhastes no destino aquilo que perdi por desatino.
Teu sorriso completa
a pergunta cravada em meu peito:
"Por que não eu? Por que Ela?"
Tua voz, qual meu canto
eclodiu n'algum coração pesado
Teu olhar, teu porte mínimo...
Tua face de anjo
tuas asas se abrindo...
Quão existe de mim em tí?
E quanto de tí contemplo em mim...
Um pseudo-idílio,
delicioso martírio.
Enalteço-te a fim de lembrar-me:
Tu és meu ontem
e eu sou o teu amanhã...
Mas, conclamemos
"Quem será o nosso agora?"
(Início)
Espelho

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A outra...

A palavra se evaporou, como se evapora o perfume d'um frasco aberto, exposto ao tempo
A palavra se transmutou em sombra e cinzas

depois de uma fogueira apavorante, alastrada pelos caminhos de ser.

A palavra, agora, é um nada que me possibilita existir...

Mas do nada faço minha morada

do nada, o cálice de Deus me chama

e concede mais uma palavra, além de infinitas outras...

e mais...

O tempo fez da palavra minha luz,

a vida a fez meu leito.

A palavra é a mãe que sopra uma canção de ninar

e me faz adormecer e sonhar...

A palavra inspiro e expiro, constantemente

Quando expiro, entremeada dos veios mais secretos que carrego...

Um dia a palavra foi nascer, hoje é presente e amanhã, talvez, será inevitável...

Porque não sou eu quem escreve, mas alguém que não sorri.

Não escreve aquela que finge ser, mas aquela que é e se torna, a cada dia.

Quem escreve é a alma que de tanto sofrer pelos outros, resolveu sofrer pela palavra...

Quem escreve não é o véu, é a face escondida,

a flecha desferida, a mortalha sagrada...

Quem escreve não tem nome, mas um dia será eterna.

Eu... Não! Sou humana, imperfeita e tão complexa.

Aquela que escreve não é complexa, ela expõe tudo que há, tudo que é

na sutileza da palavra...

É ousada, é tão direta.

Por isso corro, eu, dos perigos que ela dita...

Muitas vezes, não consigo fugir.

A palavra é a própria fuga, é rastro

e pela palavra, ela sempre me encontra.

Ai de mim, tenho tantos segredos...

Farpas...


O amor se desfez em agrulhas de tempo
Espezinhou as turvas moradas do vento
E soprou baixinho um lamento bélico
Entre mornas e castas manhãs de setembro...

O amor não é meu, não é teu
é eterno, sem lugar, sob um céu cinzento
pois não me escutas, nem eu te desvendo.


Porque minha culpa é tão cara e
teus olhos, clarão, para meu tormento.
Quão lágrimas, senão glórias
caem ao meu colo, devagar, sem trazer alento.

Diz-me com que sonhas
E cá, subirei depressa,
Entre as agrulhas de tempo,
habitarei as moradas do vento...


Serei teu anjo na guerra cifrada,
Tua harpia dourada, tatuada no peito.
Entre as mornas manhãs de inverno...

Mas tão logo e não será mais setembro.
Arranca a flor do Cairo e deixa-te por ela ser despido


Antes que se finde os nossos dias,
antes que se esqueça do meu único grito
de um suspiro intacto:
"Oh! Desejo maldito"...
(Anna Resena)