quarta-feira, 19 de maio de 2010

SÚPLICA



Costumava entrar na igreja, ao final das tardes, e observar aquela mulher pálida, com a face coberta por um véu de tule alvo e, às vezes, perguntava-me quais seus motivos de tristeza e introspecção tão profundas.
Ela, ao findar das orações, tolhidas em lágrimas, caminhava até o altar dos ofertórios e acendia as velas já derramadas e mortas, uma a uma. O vestido escuro, porém não modesto, deixavam-lhe escapar as curvas do colo e o formato do pescoço... Longo, excitantemente translúcido.
Acendia as velas e percorria o caminho oposto da igreja. Por voltas das sete da noite, sumia pelas enormes portas de madeira sucupira. Viria, ela, outras e outras tardes mais?
Eu adormecia a pensar num suposto semblante que teimava em se esconder além do véu... Seria linda? Seria vêsga? Como seria a mulher que vertia lágrimas constante e incessantemente, a cada pôr do sol?
As costas lisas... Os cabelos presos, fios dourados a contrastar com as paredes da Catedral, roxas e sem vida.
Era a espera de minhas tardes de garoto. Esperá-la era meu ofício segundo, ao sair da imprensa local. Diagramava páginas, lia ofícios e publicava-os, sem erros ou protestos, mas não havia consciência pela qual pudesse enxergar além do pranto agudo e silencioso DELA.
Numa tarde de verão, após ajeitar a gravata matizada de verde, entrei por uma das portas laterais e sentei-me a uns dois metros da senhorita, que bem poderia ser uma senhora, embora as mãos, quando despidas das luvas, mostrassem pouca idade. Me aproximei aos poucos. Aos poucos e sutilmente.
Seu olhar firmava-se, sempre, para baixo, como se os pedidos de súplica moral fossem tão pecaminosos para que ela pudesse encarar o esplendor dos céus, morada divina. Naquela tarde contei as primeiras lágrimas. Começavam, sempre, brandas e finas e, de repente, mornas e grossas caíam sobre o encosto do banco. Debruçada, amarguradas lágrimas...
Quais segredos escondia um coração, aparentemente, tão frágil e doce?
Mais um segundo e quase coloquei tudo a perder. Num suspiro tomei a coragem e entrelacei-a de frente:
- Vens todas as tardes?- Testada a minha; ela permaneceu muda.
Prossegui:
-Vens e chora tanto... Tuas orações de certo podem ser ouvidas. Tenha certeza!
Num milagre ela ergueu-se e olhou para mim, por baixo do bendito véu. Cessou o pranto:
- O que estás a fazer? Conheço-o?
Engoli seco e prossegui, arrepiado e frenético:
- Conheço a senhorita da igreja! Não vens todas as tardes?
Ela mudou a direção do olhar e, pela primeira vez, parecia encarar o teto da catedral...
Silêncio quase mortal e vergonha em minh'alma caminhavam juntos...
Neste silêncio absurdo e farto, surpreendentemente, ela levantou o véu com delicadeza...
Pasmado e gélido, observei, quase em surto, os lábios róseos e bem desenhados, a face corada e, para perdição dos meus dias, por fim, olhos amendoados, vivos, de cílios fartos...
Tão linda e tão triste... Pensei: "O que esconde?"
Ela me olhou uma única e última vez e levantou-se:
- Queres entender, meu senhor, a alma d'uma mulher? Seus prantos e loucuras? Não entenderá!
Enquanto caminhava em direção à porta, batendo os finos saltos sobre a madeira ôca, fui atrás, sem pensar duas vezes.
- Pelo menos sua graça... Posso saber?
Ela sorriu-me, divinamente, um sorriso de anjo:
- Não saberás, meu senhor! Nunca...
Prosseguiu, enxugando as lágrimas:
- Porque não hei de estar aqui, algum dia, por nenhum outro sequer... Já me basta esta dor tamanha, que nasceu, exatamente, desta mesma pergunta que hoje me fazes...
Segurou as pontas do véu e voltou a cobrir a face de santa...
Ainda tentei:
- O meu nome é Ulisses!
Ela sorriu... Segredo profundo como quem sorri dizendo, aos poucos, que morre para esta vida. E saiu pela porta.
As badaladas do sino deixaram-me tonto e perdido. Sem querer, deixei-na ir.
Deixando-na ir, passei a suplicar a Deus seus regressos naquelas e n'outras tardes. Não houveram. Chegava a buscá-la, vez ou outra, da janela do pasquim, com uma esperança que nunca morreria.
A dama, simplesmente, não voltou. Não voltaria.
Mais tarde, pude entender. A maturidade deixou-me ver que o medo de amar faz com que a fuga seja iminente e precisa.
Triste, mais ao tardar, do final daquele mesmo ano, ao pegar ofícios e publicações a serem diagramadas para o dia seguinte, uma delas dizia:
"É com pesar que comunicamos o falecimento da Senhora Analice Magalhães de Tôledo Serrano , 26 anos, ocorrido na tarde desta sexta-feira. Nós, da escola Ministral Pereira Souto, manteremos luto por tão nobre amiga e mulher, que deixa dois filhos e espôso. Nossas mais humildes e sinceras condolências."
Meu peito explodiu ao ver a foto: os olhos claros, amendoados. Sem véu e cabelos soltos. O anjo das minhas tardes de verão. Morrera por quê? Talvez pelo fato de haverem findado suas lágrimas e, em nenhum braço, conseguir arrêgo para tanta dor? Fui eu o culpado de não haver insistido?
Carregarei este fardo e a lembrança insistente daqueles olhos marejados de tristeza profunda. Tinha espôso e filhos? Onde estariam eles naqueles longos fins de tarde entre prantos e súplicas?
Nunca haveria de entender. Não naquele momento com meus dezessete anos, quase perdidos. Talvez, por querer entender, sem saber exatamente, que poderia ter perdido a única mulher à qual amaria com afinco, com o maior amor do mundo. Talvez porque, intimamente, soube, naquele, instante, que poderia eu ter aparado suas lágrimas e amparado-a... Simplesmente, amando-a.
Simplesmente, sendo para ela aquele que ela tanto buscou e em lugar algum chegou a encontrar...
Hoje, eu sei: é verdade que se morre de amor ou da falta dele!
Uma única rosa branca, como foram seus mais tenros sonhos e desejos, foi a única coisa que pude entregá-la naquela manhã seguinte, depositada numa lápide tão fria e solitária. Talvez, tão fria e solitária quanto Analice, enquanto fingia viver de aparências.

(Anna Beatriz Figueiredo Mota)

domingo, 16 de maio de 2010

Garotos...




"Seus olhos e seus olhares
Milhares de tentações
Meninas são tão mulheres
Seus truques e confusões
Se espalham pelos pêlos
Boca e cabelo
Peitos e poses e apelos
Me agarram pelas pernas
Certas mulheres como você
Me levam sempre onde querem

Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos

Seus dentes e seus sorrisos
Mastigam meu corpo e juízo
Devoram os meus sentidos
Eu já não me importo comigo
Então são mãos e braços
Beijos e abraços
Pele, barriga e seus laços
São armadilhas e eu
não sei o que faço
Aqui de palhaço
Seguindo seus passos

Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos....
São só garotos....

Se espalham pelos pêlos
Boca e cabelo
Peitos e poses e apelos
Me agarram pelas pernas
Certas mulheres como você
Me levam sempre onde querem

Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher

Garotos não resistem
Aos seus mistérios
Garotos nunca dizem não
Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos...
Perto de uma mulher
São só garotos...
Perto de uma mulher
São só ... garotos..."

(Música: Garoto II/Leoni)
Imagem: LipstickJungle

De TUA loira...




"Viajando solitário mergulhado na tristeza
Numa curva da estrada eu tive uma surpresa
Uma loira encantadora bonita por natureza
Me pediu uma carona eu atendi com destreza
Sentou bem pertinho de mim com muita delicadeza
O meu carro foi o trono, eu passei a ser o dono da rainha da beleza

Foi o dia mais feliz que o meu coração sentiu
Mas meu mundo encantado de repente destruiu
Ao ver a loura tremendo, gemendo e suando frio
Parei o carro depressa na travessia de um rio
Enquanto eu fui buscar a água, que tão triste ela pediu
Ouvi cantar os pneus e me dizendo adeus com meu carro ela sumiu

Somente um bilhetinho na estrada eu encontrei
E quando acabei de ler emocionado eu fiquei
No bilhete ela dizia por você me apaixonei
Só peço que me perdoe, o golpe que eu lhe dei

Para alimentar a esperança o seu carro eu levarei
Me perdoe por favor, quando me der seu amor o carro eu entregarei
Quem estiver me ouvindo preste muita atenção
O meu carro não tem placa mas vou dar a descrição
É branco e tem uma loura charmosa na direção
Dou o carro de presente a quem fizer a prisão

Por ela ter roubado o carro já tem absolvição
Mas vou lhe dar um castigo vai ter que viver comigo,
Por roubar meu coração."


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Veio a CERTEZA de AMAR...


"Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu...
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você...

Meu amor..
Vou lhe dizer
Quero você
Com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu...
Então...
Veio a certeza de amar você..."


(Céu de Santo Amaro/ Flávio Venturini)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Outono...



Teu beijo faz-me pensar num outono, entre as matizes verdes e caucasianas. Nossos corpos, vultos suntuosos, num fim de tempo expoente; cronologicamente, os beijos contados, quase roubados, desvelados no espaço para integrar-me plena e prazerosamente. Integrar-me é fato da entrega vaga que persiste adiando-se, para o bem da paixão subversiva, dos olhares sedentos d'um encanto que deixa-me fria e desarmoniosamente impulsiva.

Teu beijo, hoje, é o que evita que eu me perca. Enquanto tu estiveres, eu estarei; quando tocar-me, tocarei, desesperadamente, meu próprio ego, minh'alma, antes cega; nestas noites, sã, viva, ruborizada.

Não há amargo nos instantes das vertentes verdes-caucaso. As flores, inertes, se hão, presenciam a queda das folhas, oscilantes e mágicas. Quase escrevo com a ponta dos pés:

"Queres ser só meu?"

Mas as folhas mortas, ainda verdes, somem num redemoinho de ventos ilusórios e, efemeramente, respondem-me:

"Nada é pleno ou total..."

Mergulho na grama orvalhada, fazendo-me de anjo - o verde, o caucaso. A pele e os sentidos mornos à espera da tua pele e dos teus sentidos. Extasiados , aparentemente, seremos um do outro. Tão rápido quanto à vida, tão nebuloso o céu do quase outono. Letal, apaixonante, bravio...

As folhas, que ainda caem, cobrem-nos, inteiramente. Os beijos derramados, antes delicados e belos; num arfar maior, ferozes e persistentes.

Enumero, brevemente, os impulsos nervosos; focando a única flor encarnada, moça, solitária entre alguns galhos tortos.

Após, regresso ao beijo primeiro. Beijos e orvalhos misturam-se, unindo gotas e gotas. O suor, rastro do pseudo-pecado. O gozo, eternizado, fertilizará primaveras.

Voltarei para colher suas flores multiformes. E, se houver outras esperas, beijarei-te vezes mais. Á espera d'um verão rubro e fértil de esperanças.



* Sua Mary Jane...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A propósito de estrelas...



"Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas."

(Adília Lopes)

sábado, 21 de novembro de 2009

Que os desafetos não permeiem tua vida...




As pessoas mais medíocres acreditam que exercem uma persuasão, tão completa, diante do outro. E a verdade é que, quanto mais deixamos um medíocre se expor, mais sábios somos. Deixe-o falar e nada dizer, sorrir falsidades mornas, desejar-te belezas...
Nem a violência, nem o desprezo podem revelar e destruir mais que um falso amigo.
Talvez, nem mesmo a morte.
Então, enquanto ele fala e pergunta e se retorce de curiosidades vazias, diga a tí mesmo: "Sou melhor que ontem. Amanhã serei melhor que hoje".
É verdade. Não somos melhores que os outros. Mas podemos ser melhores que nós mesmos, preteritamente.
E o que posso desejar-te, senão, vê-lo livre destes desafetos que trazem tanta discórdia e tanto mal agouro? Desejo-te que deles você possa, mais que se esconder, silenciar-se e dizer-te: "Eu sou melhor. Porque não me ocupo do alheio. Minha vida pode ser boa ou ruim, mas é suficientemente interessante e preenche a mim e ao meu tempo!"
Com certeza: Nós somos melhores!!!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Carta a Ares...



Eu ando pensando em tí com extrema força que meu coração tanto se altera, vibrando entre gritos de dor e pesares.
Entenderia teus motivos, como nunca hei de aceitá-los e, em parte, as tuas verdades me assombram mais que meus gestos ditos feministas, desarraigados de preceitos morais.
Mas que são preceitos morais diante do amor, das paixões que são lançadas e largadas às nossas vidas tão cotidianamente banais?
Te disse tudo em tão poucas e fecundas palavras. Tu, porém, não respondeu-me em gestos, em versos, em nada. Pensas que beijos amenizam e cicatrizam extensas feridas na alma. Pensas, ainda, que podes olhar-me vez ou outra e considerar-se amado ou, irremediavelmente, desejado? Teus beijos foram tão densos quanto minhas vontades negras, ferozes, mortais. E meu desejo nada mais se torna que um vulto, num passado recente.
Só meu amor é tão eternamente grato, averso de teus olhos tão cheios de ingratidão e medo.
Apenas, meu amor, digo-te que desejos são findados e apagados se acaso não ardentemente alimentados e amores, finados, sepultados.
Falo disto mas não creio.
Falo num ímpeto, num desespero, na espera de que todos meus anseios desapareçam numa manhã qualquer. E com eles, talvez, partas tu, para sempre.
Mas amanhece e te desejo mais.
É que ultimamente, ando sonhando contigo d'uma forma tão imaterial, mas precisamente emergente. Ando às trevas e em suas portas bato insistentemente. Nestes sonhos e n'outros, és tu quem me salvas e se não apareces, clamo teu nome até que a última lágrima se debruce em meu peito e, tristemente, eu acorde para a realidade do teu desamor.
Talvez porque em mim tu sejas tudo isso: guerreiro, guardião, anjo...
Esqueço-me que tu és, tão claro e definitivamente, nada.
Esqueço-me de procurar algum verso de tuas mãos e nunca encontrá-los. Verdadeiramente pelo motivo de não haver linhas inscritas em meu nome. Não de tuas mãos.
Mas lembro-me e lembrarei enquanto, insistentemente, o destino nos mantiver unidos e, ao mesmo tempo, tão distantes. Neste mesmo cômodo onde guardo minhas chaves, meus segredos e meu silêncio.
Aliás, destemido é meu silêncio; não a voz.
Porque o silêncio se faz nos instantes em que eu deveria clamar, sem espantos. Mas teu nome corta minha garganta como um cristal afiado. Teu nome se esvai com algo que resta de mim.
Algumas coisas restam, entre cacos, lembranças e receios.
Restam um amor impertinente, uma paixão descabida e gritos por escrito. Restam versos e eu, silenciosamente adornados de lágrimas.
Nem o gosto do teu beijo. Nem teu olhar cortando a sala em minha direção. Nem minhas sutis afrontas à moral e aos bons costumes.
Não restam mais.
Só há o que dizer, mesmo que não deva ser dito.
E ainda há que chorar, então chorarei vez ou outra até que não haja mais linhas, lágrimas e versos, intrínsecos e desgostosos.
Ainda ouvirei algumas músicas e pensarei em tí.
Sentirei saudades daquele que passou em minha vida como um sopro do tempo, mas que deixou expostas as tantas chagas do desamor.
Sentirei tua falta nas tardes de inverno e continuarei encontrando teu olhar em todos os outros. Vezes, em meu próprio espelho.
Ainda, nestas últimas linhas, por fim digo-te: mil outras encontrarás. Nenhuma que possa ver em ti tantas razões e que por ti sejas tão inteira, intensa e verdadeira como fui.
Nenhuma que poderá te amar mais que eu pude.
E nenhuma que permaneça, por inefável amor, neste desespero iminente. Que lúcida possa fugir de tudo isso que escrevo.
Nenhuma...

sábado, 31 de outubro de 2009

O encanto de Ares...



Ah! Se por ti eu não perder o rumo
talvez me encontrarás aqui
na espera de alguém que tarde chega
ou que inda vive, só, em mim.



Naquelas noites,
fazendas perfumadas de sal
olhares redentos ao medo
emprestei-te meu único véu casto
para nele derramar seu dôrso



aos fins de tarde ou madrugadas nuas
onde todo lugar é pouco
selamos com louvor a paixão dos errantes
num mar de desejos inefáveis
em ondas de torpores ardentes



n'alguma manhã qualquer
tu voltarás, bem sei
enquanto meu pranto qual fel
cai lentamente às cartas
deixando borrados os versos
imaculados, dopados de anseios



rasgarei, profana, carne
num pulso sentido desespero
em luas crescentes despertas
entre estrelas marcadas, incertas
conjurarei teus doces beijos



Qual virgem que ama em sortílégios
almejando tuas mãos em meu peito
mais uma vez não te esvais
pois num encanto e então
habitarás em mim mais que eu mesmo


Vingarei-te as lágrimas derramadas
não em vão, tu me cobrirás com teu libré
por noites e noites meu guardião dourado
e só na pele tua percorrerá meus segredos.



De joelhos clamarás aos meus pés
desatinos percorrerão teu corpo inteiro
do meu amor, teu amor será maior
então tu terás crido que amar é o pior de todos os erros.






Se tu existes


Não, não estou louca
nenhum, portanto, devaneio.
Tu existes e isto basta
teu ser impulsiona meu tôdo desejo!

Dos sonhos que sonhei contigo
nada alivia, somente um nada
que tomba ao teu menor suspiro
do teu nada faço meu abrigo.

Glória infinda seria teus olhos
pousarem no íntimo do meu segredo
se tu existes, isto não abranda
teu doce calor não cobre meu leito.

Emerge aos prantos com seus espinhos
o louco amor que toma meu peito
Pois tu existes, e disto creio
não se findará num único beijo.

Enquanto houver vida, tempo finito
ouvirás rascunhos do meu anseio
pois que amor tamanho, juraria
tragará ou matar-me-á por inteiro.

Tentar, então, fugir em vão destino
de teu olhar, arma mortal
para quê? se já morro por tí.
para onde? se querer tanto é meu único mal!
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Anna Resena

http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=63917